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01/11/15

... tarte de dia de chuva ...

... às vezes, quando a vida é mais dura, precisamos de um momento simples em que algo nos diga que tudo vai passar. os dias de chuva são demasiados, às vezes. por isso, regressar ao simples e à certeza de um sabor reconfortante é algo precioso. muito mais quando sabe, verdadeiramente, bem...

«...uma pessoa não está... nítida e imóvel diante dos nossos olhos, com as suas qualidades, os seus defeitos, os seus projectos, as suas intenções para connosco (como um jardim que contemplamos, com todos os seus canteiros, através de um gradil), mas é uma sombra em que não podemos jamais penetrar, para a qual não existe conhecimento directo, a cujo respeito formamos inúmeras crenças, com auxílio de palavras e até de actos, palavras e actos que só nos fornecem informações insuficientes e aliás contraditórias, uma sombra onde podemos alternadamente imaginar, com a mesma verosimilhança, que brilham o ódio e o amor...
marcel proust




tarte de dia de chuva
tempo: 1.30h
ingredientes
para a massa
200gr de farinha
10 gramas de açúcar amarelo
50 gr de manteiga
1 gema
4cl de água morna

para o recheio
4 gemas
150 gr de açúcar amarelo
20gr de farinha
raspa de 1 limão
meio litro de leite
6 maçãs
canela
mel

receita: faça a massa juntando todos os elementos numa taça e amassando até ficar com uma massa lisa e homogénea. deixe repousar por trinta minutos.
prepare o recheio colocando o leite a ferver com dois paus de canela. numa taça, em separado, bata quatro gemas com o açúcar e a farinha até ficar esbranquiçado. junte a raspa de um limão. verta o leite, depois de ferver, aos poucos e mexendo sempre, aos preparado. depois de ligado, leve ao lume até engrossar e reserve.
estique a massa e forre uma forma de tarte previamente untada com manteiga (abundante). pique o fundo. polvilhe o fundo depois de forrado com açúcar amarelo e canela. corte as maçãs às rodelas de tamanho fino a médio e disponha em círculo até forrar o fundo. verta, depois, o recheio que deve estar ainda morno. espalhe. polvilhe novamente com canela (e pode juntar umas gotas de vinho do porto se gostar). volte a fazer uma nova camada de maçãs às rodelas em círculo. forre com tiras da massa ou deixe sem nada. volte a polvilhar com açúcar amarelo e/ou mel.
nota: sirva morno acompanhado com um gelado de nata ou natas batidas com raspa de laranja e hortelã.

... salvamos os dias por instantes. por breves segundos. guardando um sabor por mais uns momentos. sabemos que poucas coisas são tão certas assim. salvamos a vida, por isso, nem que seja só por um instante...

17/08/14

... de um livro retrato ...

... adiei. a escolha. nunca é fácil. mais quando o desafio é imenso. criei este espaço com esse objectivo. dar sabor aos livros que li. é um desafio impossível. e adiei por isso mesmo. pela impossibilidade. ou pelo desvario. ou pela dificuldade da escolha. andei em roda. de roda. a pairar. a atrasar a aventura. mas um dia tinha que correr o risco. a escolha apareceu como óbvia. pela imensa paixão que tenho pelo autor. e por este pequeno texto tantas vezes esquecido no seu teatro maior. uma obra que se lê em poucos minutos. mas absolutamente brilhante. imensa. densa. que atravessamos com ele. ele que escreve. ele que descreve. ele, beckett, só podia. só ele podia escrever assim. e dar sabor a isto. como? impossível dar sabor a palavras assim:

..."não mais possível a não ser enquanto quimera. não mais sustentável. ela e o resto. nada mais a fazer senão fechar os olhos de uma vez por todas e vê-la. a ela e ao resto. fechá-los em definitivo e vê-la moribunda. sem eclipses. na cabana. no circo de pedras. nos campos. no nevoeiro. diante do túmulo. e de volta. de uma vez por todas. tudo. a morte. ficar livre. passar adiante. à quimera seguinte. fechar para sempre o olhar sujo da carne. o que é que a impede? atenção."...

mal visto, mal dito, samuel beckett


pato em nevoeiro
1 hora
ingredientes (2px)
peito de pato
laranjas
mel
arroz
alho
amêndoa laminada
maçã
feijão verde
cebola pequena
azeite
sal
pimenta
salsa

receita para o pato: compre um pato fresco. peça para separar os peitos sem osso e deixe ficar a pele. lave muito bem e limpe. retire gordura em excesso. tempere com sal e limão. reserve. esprema o sumo de uma laranja num recipiente e junte uma colher de mel. pré-aqueça o forno a 220º. num tacho de barro deite um fio de azeite e leve o pato ao forno. deixe estar a 220º por cinco minutos. deite em cima do peito do pato o sumo da laranja com o mel e deixe terminar por mais vinte minutos (depende do tamanho do peito e da qualidade do forno). no final aumente a temperatura para tostar a pele. não vire. 

receita para o puré de maçã: coza duas ou três maçãs em água a ferver até quase se desfazerem. retire da água e esmague com um garfo. junte um pedaço pequeno de margarina e duas colheres de leite. junte uma pitada de sal fino. junto uma pitada pequena de canela. se precisar de engrossar junte uma colher de chá de farinha peneirada e mexa muito bem. 

receita para o arroz: frite num fio de azeite umas amêndoas laminadas. quando estiverem alouradas coloque o arroz, um dente de alho e o sal. deixe cozer até ficar seco. 

receita para o feijão verde: desfie o feijão em tiras finas e longas. coza em água com uma rodela de cebola. numa frigideira coloque um fio de azeite e aqueça. retire o feijão verde depois de cozido e saltei juntando uma pitada de salsa fresca.

dica: coloque no prato, decore e sirva quente. deve ser acompanhado por vinho tinto de boa qualidade para reforçar o sabor da carne.

... estive na dúvida. entre o cabrito e pato. para este livro. mas há algo que só seria possível recriar cm o sabor doce e calmo que o pato assim experimentado permitia. é que, como se de um imenso retrato esquecido se pudesse tratar, cada sabor precisava de ser revelado. em contraste. é por isso que este prato será a recriação da viagem que o autor nos convida a fazer. há no esquecimento um sabor amargo. mas doce, também. porque há no esquecimento, sempre, a reserva da memória. o que fica preso a nós. na pelo, no correr dos dias. naquele sabor que nos recorda um momento concreto já vivido. esta experiência, a primeira, tinha que ser essa viagem. só assim fazia sentido ter feito nascer este espaço. uma viagem ao livro. para ser discutido. falado, em conversa, à mesa. enquanto os sabores se revelam. tal como as palavras de beckett. e ficam, gravadas em forma de memória. nossa. para experimentar. e ler. e conversar. está feito.

29/07/14

... das coisas e da mesa ...

... aprendemos a perder o hábito do ritual da mesa. de estar à mesa. de conversar à mesa. a mesa torna-se um local de espera. a espera é o tempo que passa mais devagar. que é preciso encher com palavras. com coisas ditas para terem o sentido do tempo que podemos gastar somente nisso. a saborear as palavras dos outros. no tempo em que as coisas eram assim.

... "dispõe a mesa e compõe a superfície: duas toalhas individuais, sobre elas os pratos; copos em túlipa, finos, de cristal; talheres. desconhecia tudo o que possuía: nunca abrira gavetas; a mulher tratava de tudo: dá-me as meias; onde está a camisa? olha, quero levar hoje o pulôver verde. a casa: o território de que ela era a proprietária absoluta."...

no interior da tua ausência, baptista-bastos


maçã da ausência
...ingredientes (2 px)
10 minutos
duas maçãs
canela
mel
nozes
limão/sumo

receita: corte as maçãs em pequenas lascas finas. disponha umas sobre as outras passando por sumo de limão. polvilhe com canela. sobreponha com um fio de mel. acompanhe com nozes partidas em pedaços bruscos. 
dica: se puder e estiver tempo quente coloque as maçãs no frigorífico algum tempo antes para que fiquem frescas e sirva imediatamente.

... sempre pensei no que podia saber cada refeição deste livro. baptista-bastos tem esse condão. de nos levar ao interior da ausência. do que foi e deixou de ser. porque a vida é feita de rituais. de hábitos. e lembrei-me deste sabor. é como se fosse o outono que chega à boca em forma agridoce. em forma de sabores que se misturam mas deixam sempre, no final, essa sensação de não ter ficado quase nada. ficou uma ausência. foi isso. e imaginei isto. para este livro. que seria sempre esse sabor a qualquer coisa que falta. a um desejo de regresso. a uma espera. como se tal fosse possível. porque há um sabor para cada coisa. mesmo quando essa coisa é o interior da ausência.