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06/04/15

... d'outro toucinho-do-céu ...

... um dia falarei aos deuses. direi que cabe aos homens o prazer de não saber o que deve ser bom. ou não falarei a ninguém, a deuses nenhuns, para não descobrirem o que os homens souberam fazer com o tempo e as coisas simples que lhes foram entregues em jeito de encomenda da salvação das almas. apetecia-me dizer que as coisas simples são tão complexas que se tornam, cada vez mais, inatingíveis num tempo em que queremos sempre a surpresa em detrimento da certeza. talvez seja por isso que os deuses se afastaram dos homens. e dos sabores...

"que é amar senão inventar-se a gente noutros gostos e vontades? perder o sentimento de existir e ser com delícia a condição de outro, com seus erros que nos convencem mais do que a perfeição?"

agustina bessa-luís




toucinho-do-céu ou dos deuses
60 minutos
ingredientes
500 g de açúcar
150 ml de água
125 g de amêndoa moída
20 ovos (gemas)
 2 a 3 g canela
1 cálice de vinho moscatel

receita: num tacho colocar o açúcar com a água e deixar ferver por 3 a 5 minutos. juntar, num recipiente, as gemas, a amêndoa, a canela e o cálice de vinho moscatel. envolver tudo muito bem. juntar, em fio, a calda de açúcar. untar uma forma (tipo tarte) e passar por açúcar (deve criar uma "generosa" camada de açúcar ao passar na forma). levar a cozer ao forno (pré-aquecido) primeiro a 220 graus na parte inferior do forno e depois reduzir para 200 graus recolocando no centro do forno. deixar arrefecer e desenformar com cuidado.

... é sempre o tempo e as coisas. do demorado tempo das coisas. ou das coisas a mais ou a menos num tempo que já foi. os deuses são imunes a isso. serão sempre deuses. o mesmo não se passa com os sabores. ou a dedicação. ou a forma de fazer as coisas. é desta cozinha que já não temos. temos outra. de coisas e mais coisas em desconstrução porque as construídas já estão feitas. por outros. aqueles que não tendo tantas coisas tinham mais tempo. esperar um sabor é um direito dos deuses. nosso, nem tanto. ou algo a que nos fomos negando. é simples isto. mesmo que não sejamos capazes de o ver. conseguem os deuses ver por nós. e ainda bem...

14/08/14

... sabores imprevistos ...

... chega aquela hora. um dia explico porque este espaço tem o nome que tem. abro o frigorífico. observo. penso: não tenho nada do que preciso. olho outra vez. refaço a ideia inicial. está lá tudo o que preciso. não tenho é tempo. e recordo duas coisas. a minha mãe de tempos a tempos recorda-me: olha, tu que tens um quatro de espanhol... e é verdade. deve ser por isso que gosto tanto de uns bons petiscos em modo de fim de tarde na cidade. e outra coisa que a minha mãe diz sempre (talvez por isso o hábito que tenho de saber que há sempre tempo para uma coisa rápida e saborosa que se pode fazer para almoçar ou jantar em casa em boa conversa), diz ela: nem que se faça uma tortilha. ora pois. e hoje apeteceu-me ser maroto com os sabores. é que ao abrir o frigorífico andava no ar o zambujo a cantar isto que de tão belo me inspirou.
bem te avisei, meu amor,
que não podia dar certo
e era coisa de evitar
como eu, devias supor,
que, com gente ali tão perto,
alguém fosse reparar

mas não: fizeste beicinho
e como numa promessa
ficaste nua para mim
pedaço de mau caminho
onde é que eu tinha a cabeça
quando te disse que sim?

embora tenhas jurado
discreta permanecer
já que não estávamos sós
ouvindo na sala ao lado
teus gemidos de prazer
vieram saber de nós

nem dei p'lo que aconteceu
mas, mais veloz e mais esperta,
só te viram de raspão
vergonha passei-a eu:
diante da porta aberta
estava de calças na mão

flagrante, maria do rosário pedreira






tortilha marota

20 minutos

ingredientes (1 pessoa)
3 ovos
batata
espinafre
tomate
farinheira
pimenta
pimentão doce
alho
açafrão
salsa fresca
vinho branco
azeite

receita: comece por fritar duas batatas médias em azeite em forma de "batata palha". deixe repousar e deve secar muito bem com papel para evitar a gordura em excesso. (pode juntar da pré-feita se tiver com pressa). bata, num recipiente, os ovos com a salsa, o alho picado, a pimenta, o pimentão doce e o açafrão em pitadas muito pequenas. pode juntar uma pitada de sal, mas pouco. junte depois as batatas fritas. numa frigideira com um fio ligeiro de azeite, coloque a farinheira e vá desfazendo com um garfo. quando estiver desfeita junte o tomate cortado em cubos e o espinafre cortado em tiras pequenas.  junte, se gostar, um pouco de vinho branco para reforçar sabor e não secar. salteie. deixe arrefecer um pouco e junte aos ovos misturando tudo. numa frigideira junte um fio de azeite e coloque a mistura deixando cozinhar tapado em lume médio/fraco. vire. sirva quente.

dica: faça uma salada simples com alface e cenoura. tempere bem. e faça acompanhar com um copo de vinho verde fresco ou uma limonada fresca.

... por esta já todos passámos uma vez, penso. o zambujo continuava a cantar enquanto fazia esta tortilha. e por uns segundos parei para pensar nas palavras. e no som delas. tinha uma tia que dizia que eu era maroto. quando era pequenino. ficou para sempre em mim esse som. aquela forma de dizer. e a palavra. há tantas palavras que andamos a esquecer. os miúdos hoje já não são marotos. são mal-educados. ou assim. as crianças deixaram de ser gaiatos. catraios, ao estilo de herculano. ou putos. são jovens. ou miúdos. e as palavras são tudo o que temos para ver a realidade das coisas. e o seu som. lá está zambujo outra vez. recomendo experimentarem esta receita ao som das suas palavras. principalmente desta música cujo o poema aqui partilho. mas na versão do concerto no coliseu de lisboa. há aqueles deslizes deliciosos. canta com palavras a sorrir. quase ao jeito da versão de elis e jobim nas águas de março quando acabam a rir. sejamos pois marotos no sabores. merecemos isso tudo. e no fim, um brinde verdadeiro à vida. e às palavras ditas e por dizer. para que nenhuma seja esquecida...

06/08/14

... afinal sempre é verão ...

... há sabores que são, para mim, tão antigos como eu. ou seja, correm o tempo comigo. ao meu lado. sempre presentes em mim. um deles é o dos "ovos verdes". mas, ao longo da vida, comi muitos. gosto. são um verdadeiro petisco em tempo quente. ou num fim de tarde. ou mesmo antes do jantar. um. roubado do prato que está no centro da mesa. mas nenhum sabe aos que a minha mãe faz. já tentei por tudo replicar aquele sabor. não consigo nem nunca conseguirei. há coisas, principalmente nesta coisa do cozinhar, que são só de algumas pessoas. de algumas mãos. e os "ovos verdes" são os dela. serão sempre os dela. porque há coisas que são assim. estão para além da razão e do tempo. são das pessoas para que delas nos recordemos sempre. e para acompanhar esta conversa, recordo, ouvido um dia no trindade. em voz alta. o poeta. e o ovo...

porquê não se sabe ainda 

mas ainda aos que amam o poeta porque ele lhes dá o

      livro do não trabalho 
e diz cor de rosa diante de toda a gente 
mas lhe lêem o livro só nas férias 
(entre trabalho e trabalho) 
e à noite vão a casas dizer cor de rosa em segredo 
a esses e ainda 
aos que estudaram o problema tão a fundo 
que saíram pelo outro lado 
e armaram um quintal novo para as galinhas do poeta
      porem ovos 
e disseram ao poeta estas são as nossas galinhas que 
     tu nos deste 
se elas não põem os ovos que amamos 
matamos-te 
e então o poeta vai e mata ele as galinhas 
as suas belas galinhas de ovos de oiro 
porque se transformaram em malinhas torpes 
em tristes bichas operárias que cheiram a coelho

a esses e ainda 

aos realmente explorados 

aos realmente montes de trabalho 
ou nem isso só rios 
só folhas na árvore cheia do método árvore

fidelidade, cesariny



ovos verdes mentirosos
20 minutos
ingredientes (5 ovos "verdes")
6 ovos frescos
salsa fresca
farinheira
alho
sal
pimenta rosa
noz moscada
alecrim
farinha de milho

receita: coza os ovos. parta em metades. separe a gema da clara. coloque a gema num recipiente. salteie, com um fio fino de azeite, a farinheira (qb) desfeita em pedaços muito pequenos. quando estiver bem salteada e desfeita coloque junto com as gemas e desfaça tudo com um garfo. junte o alho picado, a salsa fresca, a pimenta, a noz moscada e o alecrim. tudo em doses pequenas e a gosto. deite uma pitada de sal. misture tudo. volte a colocar a gema no centro da clara previamente cortada. tente secar tudo com um pano ou papel de cozinha. passe por ovo cru e por farinha de milho panando o ovo "verde". frite em lume médio. sirva à temperatura ambiente.
dica: com uma salada bem temperada e um vinho branco dá uma refeição ligeira de excelente qualidade.

... e quando não se consegue, por falta de mestria ou simplesmente é assim a natureza das coisas, imitar, faz-se outra coisa. recria-se. porque há mesmo coisas que pertencem a certas mãos. gostava um dia de encontrar a minha receita. aquela que dizem: não há arroz doce como o da tia. ou ovos verdes, como os da minha mãe. a eternidade dos outros em nós é feita destas pequenas coisas. quer o desejemos, quer não. um dia talvez encontre essa receita. muitas vezes não é a receita. é a vida que nela é colocada. a dedicação. a ternura. a atenção e o cuidado. há quem lhe chame mimo. a verdade é que somos feitos destas coisas. e eu, de muitos ovos verdes, graças aos deuses. e à minha mãe...