08/04/15

... cozinhar e a televisão ...


... há uma brutalidade (de estar em estado natural ou em bruto) imensa em ver "desfazer" uma lampreia. ou em cortar um lombo de salmão. ou no acto simples de picar uma cebola. é tudo em bruto. a cozinha é feita disto. e ainda bem. lembra-nos dos nossos mais antigos instintos de sobrevivência. da rude natureza do ser humano quando chega ao acto mais necessário: o de se alimentar. depois podemos embelezar a coisa. rodar os sabores, brincar com o azeite e colocar lá um aroma de carvão. ou simplesmente perceber que a cor e o sabor podem jogar com os sentidos da mesma forma que jogamos com a sabedoria esperada de quem prova o que cozinhamos. é neste momento que percebemos que aprendemos algo novo. que deixámos já de cozinhar o óbvio. o simples. para começar a ser capaz de cozinhar para cento e tal na mesma velocidade com que o fazemos para trinta ou quarenta. que os procedimentos já entraram no corpo. que já não há medo de cortar cento e tal pedaços de peixe com o tempo a contar. percebemos que do animal vivo ou morto seremos capazes de tirar o que precisamos. e agradecemos a quem ensina por nos trazer até aqui. e esperamos agora qualquer coisa de estranho. este esperar. é como na televisão onde tudo parece tão limpo. e naquele lugar, tudo é de uma brutalidade imensa que é preciso retirar antes de ser servida. ninguém gosta da rudeza sofrida num prato. o pior é a construção prévia que alguns vão tendo que cozinhar é como num filme de deliciosa aparência para encantar tudo e todos. retirar a rudeza das coisas naturais é um trabalho desgastante. mais ainda o é quando aqueles que são servidos e alguns que cozinham acham que há uma "arte bela" nesta coisa de cozinhar. a beleza, já o escrevi aqui uma vez, está no sabor. e no prazer que deste deriva. e é nesse sabor que tem que estar toda essa magia. de retirar ao bruto tudo que é feio e colocar lá toda a dedicação e trabalho para deixar só o bom e o belo. aprender isto é perceber que é preciso fazer isto e sempre mais. até o corpo ganhar forma para o fazer naturalmente sem pensar muito nisso. e conseguir fazer tudo isto ao ritmo do empratamento de um prato por cada quinze segundos. é o corpo e a mente a esperar essa tal coisa que ninguém sabe o que é. mas que espero aprender. ou dominar. é talvez essa a esperança ainda por cumprir. mas para ser aprendida. sempre...

06/04/15

... há na cozinha uma coisa ...


"...age sempre de tal modo que o teu comportamento possa vir a ser princípio de uma lei universal."
kant

... não gosto da felicidade vendida como agitação. nem desta coisa moderna de "sermos todos felizes". confunde-se, demais, alegria com felicidade e agitação ou bulício com a forma de atingir esse sentimento perseguido hoje por tantos. a cozinha não é um lugar de felicidade. talvez seja por isso que acho que a cozinha é mais do que um lugar. tal como a escola. não são lugares de felicidade. são lugares de outras coisas. de deslumbre. de inquietação. de descoberta. de espanto. de surpresa. de beleza. tudo palavras ou conceitos que "modernamente" tendemos a esquecer. é por isso que na cozinha se fala em esforço. em dedicação. em trabalho. em cumprimento. talvez, de todas as coisas, a cozinha reserva um espaço muito especial para aqueles que fazem da beleza algo a perseguir. a beleza de um sabor. de um prato. de uma conjugação de ingredientes. a felicidade não pertence a ninguém para ser "entregue" ou "motivada". não é uma coisa. é um estado. a beleza é algo que se pode atingir ou desejar atingir, mesmo não sendo a mesma para todos. há no deslumbre que provoca algo de imensamente humano. os sabores são a sua revelação mais suprema, quando se cozinha. há uma beleza que nos toca. nos transforma. que se grava nos sentidos para além do óbvio e que perdura. a verdade é que a cozinha, para ter identidade, é feita destas palavras antigas. porque há algo imemorial em cada coisa que tem sempre o seu lugar. quando se aprende, numa escola, a cozinhar, não podemos misturar ingredientes que não se ligam bem. retirar a felicidade deste contexto parece triste. mas não é. porque não é isso que quem cozinha procura. o que se procura não é instantâneo. é muito mais do que isso. quem ensina sabe bem isso. que tudo foi feito de esforço e dedicação. de memória e da tal beleza que pode temperar um prato. pode parecer estranho. mas é mesmo isso. no retomar do caminho, penso na beleza. sem qualquer gota de felicidade. e isso não quer dizer ausente de alegria. a beleza revela tudo o que falta. de forma clara, sempre...

... d'outro toucinho-do-céu ...

... um dia falarei aos deuses. direi que cabe aos homens o prazer de não saber o que deve ser bom. ou não falarei a ninguém, a deuses nenhuns, para não descobrirem o que os homens souberam fazer com o tempo e as coisas simples que lhes foram entregues em jeito de encomenda da salvação das almas. apetecia-me dizer que as coisas simples são tão complexas que se tornam, cada vez mais, inatingíveis num tempo em que queremos sempre a surpresa em detrimento da certeza. talvez seja por isso que os deuses se afastaram dos homens. e dos sabores...

"que é amar senão inventar-se a gente noutros gostos e vontades? perder o sentimento de existir e ser com delícia a condição de outro, com seus erros que nos convencem mais do que a perfeição?"

agustina bessa-luís




toucinho-do-céu ou dos deuses
60 minutos
ingredientes
500 g de açúcar
150 ml de água
125 g de amêndoa moída
20 ovos (gemas)
 2 a 3 g canela
1 cálice de vinho moscatel

receita: num tacho colocar o açúcar com a água e deixar ferver por 3 a 5 minutos. juntar, num recipiente, as gemas, a amêndoa, a canela e o cálice de vinho moscatel. envolver tudo muito bem. juntar, em fio, a calda de açúcar. untar uma forma (tipo tarte) e passar por açúcar (deve criar uma "generosa" camada de açúcar ao passar na forma). levar a cozer ao forno (pré-aquecido) primeiro a 220 graus na parte inferior do forno e depois reduzir para 200 graus recolocando no centro do forno. deixar arrefecer e desenformar com cuidado.

... é sempre o tempo e as coisas. do demorado tempo das coisas. ou das coisas a mais ou a menos num tempo que já foi. os deuses são imunes a isso. serão sempre deuses. o mesmo não se passa com os sabores. ou a dedicação. ou a forma de fazer as coisas. é desta cozinha que já não temos. temos outra. de coisas e mais coisas em desconstrução porque as construídas já estão feitas. por outros. aqueles que não tendo tantas coisas tinham mais tempo. esperar um sabor é um direito dos deuses. nosso, nem tanto. ou algo a que nos fomos negando. é simples isto. mesmo que não sejamos capazes de o ver. conseguem os deuses ver por nós. e ainda bem...

... um sabor imenso ...


“i can’t stand people who do not take food seriously.” 
oscar wilde

... estou um profundo descrente. perdido o deslumbre fica pouco mais do que uma réstia inglória de esperança. em tudo. é por isso que, ao ver o nome da casa de gelados que conhecida desde pequenino, pensei logo: venderam o nome e pronto. vai ser tipo portugália ou santini. vou entrar e serei atendido por uma menina que nada sabe das vezes que desci o corrimão do antigo centro de comercial que foi sendo alisado pela custa de muitos calções rasgados. pensei logo na desilusão de provar um sabor de "plástico" em que teria sido transformado algo que me enche ainda a memória como das coisas melhores que o tempo das descobertas permite fazer ainda com cobertura de uma inocência que não regressa nunca mais. entrei, a medo. o espaço é "moderno". com "design". o antigo era antigo. sem design. só sabor. e para minha surpresa lá estava o "senhor". o "velhote". agora, aos meus olhos, um mestre na arte de fazer gelados. a conversa começou pela ideia que pensava que "tinham acabado". o que acabou foi o centro comercial. já só lá estávamos "nós". e com isto empurrou-me para a história. com a referência aos calções. vim para cá em mil novecentos e setenta e cinco. parámos uns anos. ainda tem o sotaque. ainda resta ali qualquer coisa de diferente. uma bola de gelado. em copo. pedi. já sem medo porque as mãos eram as dele. descrente já ai a pensar que quando ele partir vai tudo ser vendido. passo para a "montra" dos gelados. os clássicos. e depois as "experiências". cresci com aqueles sabores a serem experimentados. lembro-me de como era a coisa feita. comprávamos uma ou duas bolas de gelado dos "normais". chocolate com nata ou morango. e depois dizia o "velhote": vá, levem uma bola deste para experimentar. e depois digam se acham bom. era sempre ou quase sempre assim. dizíamos, o grupo. o bando, com que ia sempre lá comer um gelado ao fim da tarde no verão depois das aulas. ainda me lembro de uma dessas experiências: gelado de calipo de limão. não. não era isso. era mesmo uma bola de gelado com o sabor do calipo de limão. muito, mas muito melhor. isso ou o de pistache que acabou por ficar na "ementa". olhei. queria aqueles de "experimentação". kinder bueno. é isso. gelado de qualquer coisa impossível. meti conversa com o "rapaz" que atendia do outro lado. descrente, lá rematei: você não deve ser desse tempo mas eu comi muito do de morango. meia dúzia de palavras e lá foi nascendo a conversa. era filho do velhote. aprendeu tudo com ele. será ele a continuar a casa. e lá disse eu em forma de desafio que se dizia sempre: para mim vocês sempre foram muito melhores do que a santini. e eram. e são. há uma grande diferença. é que podemos provar antes de comprar. e lá veio a colher pequena com um bocadinho para "provar este". mas há mais duas coisas que nos separam: os nossos gelados estão à vista e nunca somos capazes de fazer o gelado de morango com o mesmo sabor. porque os morangos são, verdadeiramente, diferentes de dia para dia. fechei os olhos por um segundo. percebi que nem tudo estava perdido. chegou-me o desejado copo com uma bola de gelado. daquele gelado. daquilo que para mim sempre foi e sempre será o "verdadeiro" gelado. provei. e qual avassalador tormenta de memórias tudo regressou ao tempo em que devia ter sido feito. estava lá tudo. igual. perfeito. sem tirar nem pôr nada. tudo, intocável. de uma beleza e de um sabor inconfundível. tchipepa. chama-se a casa de gelados em cascais. e o gelado. é nesta essência que reside a beleza da cozinha. e fazer as coisas assim já é para mãos de mestres. ou para quem não perdeu a identidade. é um sabor imenso. aquele. é o gelado. somente...

26/03/15

... cozinha: lugar de vida ...


"...mas só há um mundo. a felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. são inseparáveis. o erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. acontece também que o sentimento do absurdo nasça da felicidade. “acho que tudo está bem”, diz Édipo e essa frase é sagrada. ressoa no universo altivo e limitado do homem. ensina que nem tudo está perdido, que nem tudo foi esgotado. expulsa deste mundo um deus que nele entrara com a insatisfação e o gosto das dores inúteis..."
camus

... e depois, de sentir a vontade de parar toda a aventura, chega a cozinha. quem ensina mostra mestria. envolve tudo com histórias. acredita e confia. nada há de mais motivador do que sentir confiança. que alguém espera de nós aquilo que podemos ser capazes de fazer. o hábito faz o monge. os processos ganham forma de rotina. começa a entrar tudo no corpo e nos gestos. sabemos e planeamos. pensamos em conjunto, em grupo, antes de fazer o que quer que seja. depois é deixar as mãos fazerem. recordamos a memória. e quando nos dão uma receita, é a identidade que procuramos. criar algo que fique. só isto. fique um pouco mais do que tudo aquilo que corre e passa no tempo que se consome cada vez mais em instantes. ouvimos o chefe dar os parabéns. dizer que as coisas correram bem, com erros como é humanamente natural para quem aprende esta coisa da cozinha, mas que foi tudo entrando no seu caminho. volto à identidade. "são vocês a cozinhar hoje?" é como um reconhecimento. não é preciso mais. é também, o esperar constante pelo sabor certo. o cansaço transforma-se em hábito. é muito grande, mas ali, quando quem ensina confia, transforma-se em vontade. mesmo que o dia tenha mais hora do que o corpo merece. desconfia-se da receita da pizza mas afinal era errado desconfiar. acertam-se temperos. vai-se rindo pelo meio. passa a haver tempo para fazer as coisas bem porque os procedimentos simples já estão no sangue, na vida em cada um de nós que em grupo, cozinha para servir bem. bom. e bem. trocam-se ideias. de igual para igual. ouve-se. diz-se. no fim faz-se o balanço. é raro na vida tudo isto se resumir a poucas horas. é que a cozinha é um lugar de vida inesperadamente rápido. pensar, fazer, repensar, refazer, melhorar, e voltar a pensar. tudo num dia. ou várias vezes num dia. regresso, no fim deste tempo à identidade. e penso mesmo que a cultura é um bem essencial para quem quer ser e fazer diferente em cozinha. lobo antunes, o escritor, dizia que é tão saber fazer bons pastéis de bacalhau como ter lido os lusíadas. eu diria que para sentir plenamente aquilo que se faz na cozinha é preciso ter a identidade dos sabores originais na ponta da língua. um pastel de feijão é de uma certa forma. o melhor que comi. ou o tradicional, de torres vedras comido num fim de tarde de outono. saber o sabor das coisas. e quando a cozinha é a tradicional portuguesa isso tem um peso ainda maior. é a cultura, estúpido. seja lá o que isso for. o que importa, agora, é o que fazer com isto. com este caminho já feito e com isto que somos já na cozinha. do que já sei. o que já aprendi. o que fazer com isto? talvez só guardar. por enquanto. guardar e esperar o que virá depois de uma pausa breve. as forças, essas regressam enquanto o corpo não desistir. o resto? são só sabores, amizades, dedicação, brio e vontade. é por isso que a cozinha é um lugar, imenso, de vida...

23/03/15

... a realidade e as coisas ...


... o mundo gira. a cozinha é um bom refúgio. um lugar onde se pode estar, sem ser preciso falar. às vezes nem é preciso falar. gosto disso. e quando se embarca numa aventura como esta, sabemos que um dia haveria de chegar um dia assim. apeteceu-me, verdadeiramente, desistir. as forças são poucas. não é cansaço. são mesmo as forças. e perceber que, por mais que tentemos, as pessoas serão sempre pessoas. e o cansaço de lidar com tantas e em tantos momentos, surge imenso, vasto, pesado, quando do nada olhamos e vemos o cansaço de alguém que nos quer ensinar, ouvimos a história de um concurso construído em função de vencedores antes do tempo ou simplesmente quando sabemos que estamos a perceber tudo um pouco cedo demais. quem se aventurar nesta coisa de aprender cozinha tendo uma vida já vivida noutras áreas, encontrará dias assim. mas depois há o "olhar em volta" e ver miúdos com brio profissional como nunca vi em gente respeitável com "carreiras". uma conversa improvável com um colega que admiramos na arte de desenhar e pintar sobre pintores e arte. há, ainda, quem lute contra o cansaço ou a tristeza. há a conversa sobre sabores ou uma revista comentada com iguarias de onde se retiram ideias para um futuro prato. há dias assim. este foi talvez o primeiro em que me senti capaz de deixar esta aventura ficar por aqui. mas a vida, aquilo de que são feitas as coisas e os sabores, a realidade e a forma de encarar o futuro, nunca me deixariam fazer tal coisa. a vida leva-nos sempre onde nos esperam. se me trouxe até aqui é porque algo me espera. nem que seja o tempo, em que, estando na nobre e bela arte de cozinhar tudo o resto desaparece. até dias como este...

22/03/15

... do tempo na cozinha ...


«...the vibrations on the air are the breath of god speaking to man's soul. Music is the language of god. we musicians are as close to god as man can be. we hear his voice, we read his lips, we give birth to the children of god, who sing his praise. that's what musicians are...»
copying beethoven, movie

... estava a aguardar o arroz secar e pensava. o tempo. aqui, tudo é uma questão de tempo. nele reside a imperfeição de tudo. quase tudo. o resto vem das mãos. e do cuidado. é necessário uma abstracção total do mundo para gerir as imperfeições na cozinha. e a cozinha é mesmo o reino das coisas imperfeitas. a conjugação, qual partitura, é mesmo essa escrita com tempo das coisas que se podem combinar para fazer algo saboroso. num espaço e num mundo onde o tempo das coisas é sempre acelerado, a cozinha não consegue fugir a isso. deveria. tudo são máquinas para arrefecer mais depressa. cozinhar mais rápido. fazer "parecer" que até foi feito à mão. as mãos precisam de tempo. de tempo para fazer e tempo para descansar. a máquina é feita para o contínuo processo de fazer. fazer sempre. estava a pensar nisto porque foi confrontado com a cozinha oriental. sabores e técnicas. e percebo a lógica cultural mais do que o que dela fazemos para parecer que sabemos, aqui, neste canto do mundo, imitar o que lá é feito ancestralmente. é que o segredo é mesmo esse. ser ancestral. como a doçaria conventual, por cá. curiosamente foi nesta semana o reino desta questão que se cruzou nesse espaço que é a cozinha e a pastelaria. olhava eu para o forno e via que o processo acelerado das coisas feitas para estarem prontas desvirtuava o virtuosismo daquelas que tiveram tempo para repousar. adoro esta expressão. deixar as massas repousar. descansar. como se fosse preciso o mundo girar mais um pouco para o sabor aparecer. saber esperar é, na cozinha, a maior das virtudes. para os comensais, essa espera, pode ser o maior dos prazeres. aquele descanso que traz algo de novo. contra a pressa de um mundo cada vez mais rápido. curioso, isto. olhar e ver a importância do tempo, que passa, que passou, que fica para ser espaço de criação, na cozinha. é talvez esse, parte do segredo que agora começo a entender... 

17/03/15

... silêncio na cozinha ...


... "nós, ali, brincamos aos deuses.". e pensei na frase da peça de teatro antiga de genet. os deuses não possuem sombra. faz pensar isto de brincar aos deuses. na cozinha. mas é um pouco isso. e depois, quando inteligentemente, quem nos ensina dá liberdade para aprender, então conjugam-se os factores perfeitos para fazer desaparecer o medo e fazer aparecer o sabor. somos feito de memórias. não somos o que comemos. esta frase deu o mote. mas os deuses não comem. nós, comemos. no entanto, a expressão é sempre do manjar dos deuses. e trocamos tudo porque só queremos aquele momento. estar, um dia, depois de tantos longe desse lugar onde percebi que a cozinha era um mundo, no lugar onde se fazem as coisas doces é perceber a magia desse espanto. é aquele momento em que conjugamos coisas que são memórias nossas. nozes. laranja. canela. uma calda de açúcar. perceber que nem sempre as coisas são simples. perdido o medo, tudo é possível. quase visitar o olimpo. por instantes. é aquele instante da prova. em que o cérebro revela a sua única imperfeição. que estudei. incapaz de controlar o espanto o cérebro produz silêncio. fica-se e pede-se silêncio. para os sabores aflorarem ao corpo em forma de memórias. é mesmo um momento em que tudo se suspende. é prazer. deturpamos a palavra mas é mesmo isso. prazer. e a cozinha tem desta coisas. como muito poucos outros ambientes é aqui que podemos conjugar coisas imperfeitas. sob o nosso olhar, perceber que a + b não é sempre c. é este silêncio que procura quem cozinha. porque ele diz tudo. até o obrigado que não era preciso. ou os parabéns pela criação que foi só uma coisa efémera demais para algum dia ser recordada. ou a amizade de partilha entre quem criou. tudo se reflecte naquele silêncio. talvez seja ele, na sua imensidão, a verdadeira linguagem dos deuses...

12/03/15

... espaço saboroso ...


..."a diferença entre solução e direcção é esta: a solução é sempre um remédio passageiro para disfarçar a desgraça. ao passo que a direcção é a própria dignidade posta nas mãos do desgraçado para que deixe de o ser, e a direcção única é a garantia perpétua dessa dignidade."
almada negreiros

... dou por mim a pensar em sobrevivência. e no tempo. e na sociedade que hoje temos. e no quanto me espantam as pessoas e no quanto, cada vez mais sou um ermita neste tempo e neste espaço, procurando o silêncio sobre todas as outras coisas. dou por mim a pensar que sei agora que, como em qualquer outra arte, dominar as coisas simples é fundamental para fazer "boa" cozinha. e tudo com coisas muitos simples. água, açúcar, farinha, manteiga, ovos. e tudo se pode fazer. fazer bem. como diz um colega, para fazer bem só é preciso querer fazer bem. a frase contém uma verdade fundamental em cozinha. o querer. às vezes esquecemos isto. podemos somar anos e anos de experiência. ajuda muito e vejo isso em cada chefe que acompanha cada passo de cada confecção. mas sei também que há um querer. um espaço de vontade que é o ingrediente que tudo transforma. porque realmente, percebendo que estas coisas simples, básicas [de basilares] são o fundamento de tudo o resto que podemos criar, sabemos também que há esse elemento único que tudo diferencia. a dignidade de um prato está na forma como o fazemos. como se fosse para nós. ou para alguém que temos em consideração. para alguém que queremos acolher bem. mesmo que depois, não o seja. a dedicação é uma palavra em desuso. mas é mesmo e a única que faz sentido aqui. aprendi isso entre outras coisas. do primeiro ao último prato, do maior ao mais pequeno detalhe, tudo importa. tudo faz diferença. na pastelaria, ainda mais. porque o fim de uma refeição pode ser o que fica como pedra de toque para tudo o resto. aprender isto é perceber que cozinhar é acolher. e dar, a quem provar o que fazemos, um pouco de nós. nem que seja só pelo remate de alguém que nem sabemos quem é, mas que diz: está bem feito. está bom. fazer bem é, em verdade, só querer. e a dedicação faz a boa e má cozinha. disso não tenho dúvida...

11/03/15

... cozinhar é ter alma ...


..."o imaginário é como um museu de imagens, sejam elas passadas, possíveis, já realizadas ou a realizar e pode manifestar-se em todas as ocasiões, seja nos sonhos, nos delírios, nas visões ou mesmo nas alucinações. o homem não pode viver sem imaginário, sem o prazer do imaginário porque ele é, antes de tudo, um antídoto do medo, principalmente do medo da morte porque, felizmente ou infelizmente, o homem é o único animal a ter consciência dela."
alfredo saramago

... quem se aventurar no caminho da cozinha, saiba que o caminho não é fácil. é, mesmo, algo difícil. e estava a pensar nisso agora. solitário pensamento de quem só tem a si mesmo para conversar sobre estas coisas. quem verdadeiramente queira entrar na cozinha e deixar que a cozinha tome conta de si, faça parte de si, saiba que a travessia do mar é dura. imensa. às vezes, tem a forma de adamastor. mas há depois uma recompensa para quem, verdadeiramente, abraçar a correria, os sabores, os cheiros, o constante afazer e o constante cansaço. há o lugar do imaginário que renasce em cada dia. em cada trabalho feito. em cada prato. ouvi uma chefe dizer algo que trago comigo: "vê, a cozinha portuguesa é tão boa que não precisa de grande "empratamento". as coisas são simples e boas por si." é uma tal de coisa chamada essência. que vem da identidade. e que em alguns pontos se liga com o nosso imaginário pessoal. tem sido uma imensa descoberta. dois chefes que estão a fazer um trabalho fabuloso de nos ensinar a amar a arte de cozinhar. a trazer gosto e sabor. a levar este imaginário ao lugar onde deve estar. e depois, ao aprender, dizemos: mas afinal é tão simples. é nessa beleza da simplicidade que se esconde tudo. e se revela tudo. penso nisto, quando sei o quanto me tem custado esta aventura. há uma parte em mim que se calou. não diz mais: o que é que estás aqui a fazer. mas quando se deixa a arte de cozinhar entrar na pele sabemos que não seremos os mesmos quando este caminho acabar. não sabemos como seremos. porque não seremos os mesmos. eu não serei o mesmo. e dante, o da divina comédia, tinha uma expressão de encruzilhada que definia tudo. perdido no meio da vida dei por mim sentado numa pedra. diria eu. e encontrar-me na e pela cozinha, como hoje se dizia em conversa que nos fez pensar um pouco num silêncio que devorou o espaço, faz pensar. faz mesmo pensar. há uma magia, uma imensidão de coisas, nesta coisa única que é cozinhar. este é só o pensamento triste de um homem só, diria antónio nobre, o poeta. eu diria o mesmo. e nem sei porquê. quem se aventurar no caminho da nobre arte de cozinhar, saiba que tem que levar o seu lado mais humano. ouvir dizer que as costas vão doendo. que os dias vão passando. que as horas, às dez, doze ou mais de cada vez, vão passando depressa demais, às vezes, para serem vividas. mas que no fim do dia, quando ninguém ouve e ninguém vê e só o seu próprio pensamento ecoa saberá que o lugar perdido é encontrado num sabor que fica como imaginário vivido, presente e futuro...