13/11/15

... ris[sóis] de sardinha em caldeirada ...

... ouvi: e por que não fazer rissóis de sardinha? aprendi com a vida a dizer que sim antes de dizer que não a algo que pode parecer impossível. sabia a receita da massa. o resto era preciso pensar. pensar que a sardinha é um peixe de sabor forte. pensar que o mar, faltava, ali. e ao mar, o sabor de outros peixes. perder a textura bruta e rude da sardinha seria um erro. dar-lhe sabores para a acompanhar, era difícil mas não impossível. quebrado o impossível, eis o resultado. o inesperado...

«... é que absorvo demais as coisas. é como se ao atravessar uma rua nova o chão ficasse colado ao meus sapatos e mais ninguém tivesse espaço para pousar os pés. é como se a partir daí só os pássaros pudessem percorrer a rua - finalizava, num tom poético, muito raro em si, pois era homem que se orgulhava da sua lógica...»
gonçalo m. tavares


ris[sóis] de sardinha em caldeirada
ingredientes
para a massa
750 ml de água
500gr de farinha peneirada
50 gr de manteiga
ou
40 gr de banha
zeste de limão
sal
ovo e pão ralado para panar

para o recheio
10 filetes de sardinha fresca
50 gr de miolo de mexilhão
2 tomates maduros
1 pimento vermelho assado
salsa fresca
cebola
alho
salsa
azeite
vinagre
vinho branco
sal e pimenta
picante (a gosto)

receita da massa: ferva a água com a manteiga, o sal e a zeste de limão. quando ferver junte, de uma vez só, a farinha e mexa até ligar e ficar uniforme. deixe arrefecer e tenda com o rolo da massa o mais fino que conseguir. guarde no frio.

receita para o recheio: refogue em azeite (pouco) o alho com a cebola picados grosseiramente. quando estiver esbranquiçado junte o tomate cortado aos cubos ou rodelas finos. deixe desfazer. junte o pimento, deixe apurar. quando juntar o pimento junte depois uma colher de chá de vinagre e refresque com vinho branco. tempere. quando estiver a ficar sem caldo junte o mexilhão cortado aos pedaços e os filetes de sardinha cortados em cubos médios e deixe apurar. reveja os temperos e refresque sempre com vinho branco. no final, deve ter pouco caldo mas é impossível não ter nenhum pelo que deve coar a fim de ter um preparado o mais seco possível sem deixar de ser húmido.

receita para os ris[sóis]: tenda a massa, corte em forma redonda ou semi-redonda, recheie o meio e feche. passe por farinha, ovo e pão ralado. frite em óleo quente (185º). sirva morno ou frio.

dicas: sendo um ris[sol] de tipo rude ou popular, deve ser acompanhado de um vinho branco ou verde fresco e uma salada fresca. pode temperar o pão ralado com limão, orégão fresco, sal e pimenta. se usar sal no pão ralado reduza na massa.

... em cozinha o lugar da invenção é algo de impossível. mas a criação, não. nem que seja por nunca termos atravessado aquele mar. ou feito aquele caminho. este é um desses casos. e há coisas que nunca passam de moda. os ris[sóis] são uma dessas coisas. quando são bons, são algo de imaginado e fabuloso...


...dias diferentes na cozinha ...


«... diz-se a um cego, estás livre, abre-se-lhe a porta que o separava do mundo, vai, estás livre, tornamos a dizer-lhe, e ele não vai, ficou ali parado no meio da rua, ele e os outros, estão assustados, não sabem para onde ir, é que não há comparação entre viver num labirinto racional, como é, por definição um manicómio, e aventurar-se, sem mão de guia nem trela de cão, no labirinto dementado da cidade, onde a memória para nada servirá, pois apenas será capaz de mostrar a imagem dos lugares e não os caminhos para lá chegar...»
josé saramago

... temos sardinha. a "na telha" parecia soar a conhecimento. o escabeche, a sabor. mas o tempo de aprender não é vestido para servir a rotina. é tempo para experimentar. parecia simples. o pimento fica sempre bem. a batata frita. a couve salteada. dar forma a algo bonito. isso e o desbravar de um desafio: rissóis. fez-se tudo. na telha, em camadas e em rissóis. o mesmo produto. no final, importou experimentar. não o resultado mas o que podia ter ficado melhor. com isso sabemos que aprendemos. poucas vezes existem estas oportunidades. se falhamos é sinal que estamos a tentar. e depois, fecha-se o dia. mais uma semana. mais um mês. mais um tempo, não importa. nada se arruma. começa outro tempo. faz-se uma compra ou outra. é o tempo de cozinhar para quem se ama. para os próximos. aqueles que são a pele dos dias. da vida. em pura liberdade. em pura dedicação. não se pára. aprende-se. experimenta-se. faz-se tudo. de tudo. cozinha-se o que se gosta. como se gosta. numa dança das mãos e dos gestos. sem técnica. apenas dedicação. sem tábuas ou tipos de corte. sem nada disso. só para o prazer. para roubar mais tempo ao tempo que é tão pouco para cozinhar assim. há nisto toda a beleza e salvação do mundo e de nós mesmos. é preciso dizer e ver isso. sentir isso. isso dá alma ao que se faz. depois, profissionalmente ou simplesmente para os outros que não são aqueles que vivem em nós. na cozinha, nesta, cozinhamos sem querer errar muito mais do que na outra. não permitimos a nós mesmos o erro ou o remendo. queremos saber mais, por isso, para isso. não para cozinhar melhor. para dar mais. transferimos isso para os sabores. e para as mãos. treinamos. fechamos a alma ao correr dos dias e nesse tempo da cozinha que é uma imensa conversa enamorada, sabemos que nunca conseguiremos repetir nada daquilo noutro contexto. aquela é, verdadeiramente a nossa cozinha. quem somos, num prato. num sabor. porque é assim que dizemos tudo. que cuidamos. de tempos a tempos conseguimos isso no lado profissional. porque nos dão liberdade para tal. porque nos deixam mover as mãos em criação sem medo ou julgamento. é muito raro. nunca me aconteceu. cozinhar para aqueles que são a nossa vida é isso mesmo. dar-lhes vida. num sabor...


12/11/15

... das coisas e dos modos ...



"... considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. não sei onde me levará, porque não sei nada. poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. não sou, porém, nem impaciente nem comum. deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero..." 
fernando pessoa 

 ... há modas. tempos. formas de saber as coisas. gerações. e coisas que passam. sabores que se perdem. cozinhar hoje é conservar tudo isso. ao cozinheiro devia ser exigido esse lugar de restauração. parece que tudo obriga a uma modernidade permanente, fluída, onde a memória é um ingrediente envolto em nevoeiro para ser vendido como "tradição" ou pelo menos como sabor seguro. não se aprende isto. ninguém ensina isto. isso vem com um olhar admirado sobre a realidade das coisas. a cozinha precisa desse espaço. e quem cozinha precisa de ter isso presente quando cria. quando lhe é exigido que transforme o real. o conhecido. o que já faz parte da memória colectiva. hoje, sentir isso é aprender. é até estar perto de compreender o presente. hoje, apresentamos a cozinha como lugar de espectáculo. de estrelato. de fama. mas a cozinha é tudo menos isso no correr dos dias e do trabalho. é esforço e conhecimento. e se a ideia da figura de quem cozinha como elemento central parece hoje ser uma evidência inquestionável a verdade é que todos pertencem a um devir maior do que eles mesmos. antes de nós, cozinham outros. depois de nós, outros vão cozinhar. outros vão conseguir aquilo que nós tentámos. e outros vão seguir passos que nós conseguimos abrir. as mãos vão-se somar. no sabor. na técnica. na forma de fazer as coisas que se conhecem ou se deram a conhecer. quem degusta, quem prova, quem come, sabe isto. sente isto. é o prazer de algo ser saboroso. algo que se leva à boca com expectativa e se revela como uma iguaria feita de tempo e da soma de todas as coisa seguras que faz, quem come, dizer: quero voltar. quero voltar a provar. a comer aquilo que se transformou em memória pessoal construída de tudo aquilo que faz de um alimento algo de fabuloso. isto não se ensina. é preciso perceber. mais do que perceber, é preciso compreender. isso faz tudo ter sentido. mais do que sentido: lógica. esta ideia não é de quem está a dar estes passos primeiros no mundo da cozinha. nem olhar para o passado como referência única. é uma filosofia para o acto de cozinhar. a minha. desaparece aqui a ideia do imediato. ou da aparência do sabor. ou da plasticidade num tempo de coisas efémeras. é por isso que o esforço que faço é maior. sempre maior. para me superar. para superar o que sabia fazer, o que vi fazer, o que aprendi. este estado de inconformidade faz de mim um aprendiz de coisas de cozinha. é um passo. um passo muito pequeno. mas essencial.

09/11/15

... histórias de cozinha ...


«... houve uma vez um tempo que não fosse um tempo de perguntas? nadas-mortas até à última. antes disso. tão cedo dadas à luz.antes disso. num tempo sem a palavra resposta. tempo de não ser possível responder. de não poder não querer saber. de não poder. de não. jamais. um sonho. eis a resposta...»
beckett

... ensinar é dos actos mais difíceis que conheço. é dar o que se sabe. fazer tal coisa bem é ainda mais difícil. cozinhar é dos actos mais exigentes que conheço. é por tudo o que se sabe para dar sabor e memória. e delícia. fazer tal coisa muito bem é ainda mais difícil. ensinar a cozinhar bem é missão dada como relíquia a poucos. pedi, durante tempo demasiado longo, para me ensinarem a fazer pasteis de bacalhau. não uns quaisquer. uns bons pasteis de bacalhau. aprendi. porque me ensinou quem sabe, verdadeiramente, fazer. e ensinar. e mostrar, sem reservas, o que sabe. cozinhar assim é cozinhar com essência. é cozinhar os alimentos com alma. não são ingredientes nem iguarias como modernamente lhes chamamos. são alimentos. de alma. com as mãos. só podia ser com as mãos. as mãos que fazem tudo. que amassam. que separam. que ligam. que temperam. sem certezas. "não sei quantos ovos". é preciso ver, saber, sentir. é preciso isso mais do que qualquer ciência ou sabedoria virtual. são coisas ancestrais estas. que não se ensinam a não ser pelo exemplo. por ver fazer. por fazer. por reparar que as coisas, sendo simples, revestem-se de uma única certeza para ficarem boas: dedicação. o sentimento ajuda. do alimento à alma e ao prazer de comer vai um passo pequeno. o resto é experiência. e quando se ensina e cozinha assim nada mais é preciso. isto tudo, por causa de um maravilhoso pastel de bacalhau...

05/11/15

... parece fácil ...


«... sentiu que estava a deixar de ser inteiro. sentiu aquilo que vivia não era a realidade. mas ele não sabia muito bem o que era a realidade. havia muito tempo que dentro de si se quebrara algo que lhe permitiria viver pelo prazer sem ser dominado pela dor. nunca se sentira só. a solidão é uma onda negra que se apodera lentamente do interior de nós, até nos envolver de forma insuportável. e só se revela com  voracidade interminável quando nos tornamos na recordação perdida de termos vivido fora dos outros...»
baptista-bastos

... já passou tempo. algum tempo. na vida, um ano. só isso. tudo isso. aprender a cozinhar é aventura para uma vida inteira. nunca para um tempo determinado. nunca por se fazer uma vez uma confecção. nunca por ver fazer. cozinhar é feito de um imenso misto entre o saber, a experiência e dedicação. repetir é importante, tanto como conhecer. tanto como pensar. como estudar. como rever. como esperar mais. como estar constantemente inquieto. desejar mais. desejar fazer melhor. conseguir e falhar muito mais. como na vida. e depois, depois perceber que é nas coisas feitas com a maior simplicidade que está o maior desafio. um molho que se faz para um peixe com mestria. uma sobremesa feita com elementos tão simples que qualquer pessoa reconhece a beleza do sabor ali criado. uma deliciosa composição de chocolate que leva só duas coisas e o resto é o mover de mãos e a forma de envolver tudo. uma conversa de corredor sobre cabrito ou sobre qualquer outra coisa em que se reflecte a vida de quem cozinha ou quem sabe. ao fim deste tempo, percebi isso. que aprendi e aprendo com cada momento algo de muito importante. uma escola pode ser isso também. feita de momentos. uma escola de cozinha tem que ser feita disso. da diversidade de cada opinião, de cada forma de fazer. é nisso que reside a beleza de tudo o que se aprende, assim. até aprender a saber ver quem sabe fazer com pouco, muito, é algo de revelador. e o contrário também. foi e é muito difícil estar nesta viagem. muito mais do que alguma vez pensei. mas há dias em que, vendo estas coisas simples brilharem e dizer para mim: isto é cozinhar, sei que um dia, lá muito longe ainda, gostava que dissessem isso de algo que eu faça. porque não quero ser chefe, nem anseio qualquer reconhecimento de nada nem de ninguém. o que gosto na cozinha é mesmo do anonimato. é raro alguém dar os parabéns, é ainda mais raro alguém agradecer ao cozinheiro por uma iguaria provada que se revela tão boa que nos prende a vida e a suspende por instantes. por isso, e gostando imenso dessa solidão anónima da cozinha, hoje só consigo pensar nisso. cozinhar é mesmo esse acto de fazer com coisas simples algo fabuloso. cozinhar é isso. tudo o resto é espectáculo. ou qualquer outra coisa. é por isso que, ao encontrar feito por quem sabe e como deve ser feito, algo tão bom de tão simples que é, que me reencontro comigo e repito: cozinhar é isto. nada mais. e ainda bem...

04/11/15

... finalmente, perceber ...


«... é tarde
nenhum sono
repõe o que não vivi.
(...)
agora,
resta um único desfecho;
de novo, acordar por dentro...»
mia couto

... escrevinha-se qualquer coisa num papel. faz-se um desenho. um círculo. pensa-se em todos os sabores possíveis. pensa-se que marisco combina com citrinos. faz-se este exercício de memória. de raiz. parte-se depois tudo em pequenos pedaços. fica-se com dúvidas. cada vez mais. e cada vez mais uma insatisfação permanente. a ideia constante que se pode e se sabe fazer melhor. depois, depois pensa-se que é preciso dar um passo de cada vez. este foi mais um passo. pequeno, feito da ideia que, em parte, se conseguiu vencer uma barreira que existia. esta cozinha não é nem nunca será a minha porque lhe perco a mão. porque não tem alguns elementos que gosto muito. a estrutura. a dimensão. a profundidade. a memória. a construção. mas percebi. percebi duas coisas fundamentais. que o sabor final se pode construir por camadas. separando cada elemento que constitui uma conhecida confecção. e que um prato, desta cozinha contemporânea vai sempre ser sustentado por um sabor antigo. maior do que os outros. que, como se diz modernamente, se sobressai no meio de tanta coisa. obriga a pensar. obriga a sair dos lugares onde me sinto mais presente. mais cozinheiro. aqui, tudo se transforma numa estratégia de decoração. decorar um prato. decorar um sabor. dar, a quem come, a possibilidade de escolher como quer comer e o que quer misturar. doce, amargo, salgado, agridoce. falta, por isso, a dimensão da cozinha de tacho. de tempo e de modo. falta aquela ligação única do sabor demorado. isso não é bom nem mau. é diferente. isto, bonito ou não, é só um exercício de estética. nada mais. para quem cozinha importa a superação. para quem aprende, importa o caminho. esse que não nego, faz-me rever as coisas agora. se sei que cozinha é a minha e qual a razão que nela encontro, sei agora, nestes primeiros passos qual a forma que esta também tem. aprender isso é uma conquista. muito pequena, ainda, mas quase improvável há uns tempos. agora, agora é tentar revestir uma confecção de um sentimento. a minha alma triste e cansada seria capaz de produzir algo assim. pensarei nisso. em colocar a nostalgia num prato. a cozinha que gosto coloca a saudade no centro da degustação. da memória que fica. talvez, se conseguir colocar a nostalgia no centro de um prato dela me consiga livrar. nem que seja por instantes...

03/11/15

... faz um ano ...

... há um ano estava a aprender a fazer massa de fartos/choux. foi uma viagem única e imensa a que fiz a aprender algo que me parecia impossível: pastelaria/doçaria. tive, neste campo, a orientação de chefes que me marcaram para sempre e me continuam a fazer querer saber mais a cada dia que passa. perdi o medo. isso foi o que mais aprendi. a perder esse medo que me dizia que não seria capaz de fazer o que hoje as mãos parecem já conhecer desde sempre. aprendi. verdadeiramente, aprendi. e nada há de mais libertador do que isso...

«... as cenas da nossa vida assemelham-se a um quadro feito de mosaicos toscos; é ineficaz visto de perto e tem de ser admirado à distância para se lhe apreciar a beleza. é por isso que atingir algo desejado é descobrir como isso é vão; e é por isso que, embora vivamos toda a nossa vida na expectativa de coisas melhores, costumamos ao mesmo tempo ansiar tristemente pelo que passou...»
schopenhauer


massa de fartos/choux
(a que uso e como faço)

ingredientes
80 gr manteiga
250 ml de água
15 gr de açúcar
5 gr de sal
125 gr de farinha
4 ovos inteiros

receita: ferva a água com a manteiga até esta se desfazer. junte o sal e o açúcar quando estiver derretida a manteiga. desligue o lume e misture a farinha de uma só vez batendo com uma colher os elementos até ficar com uma massa homogénea. deixe arrefecer. junte, depois de fria, os ovos dois a dois até obter uma massa de aspecto cremoso. deixe descansar. leve ao forno a 200º os primeiros 5 minutos num tabuleiro untado e depois o tempo necessário para cozer a massa a 150/160º.

dicas que faço:
* peneirar a farinha, sempre.
* usar manteiga sem sal.
* deixar massa arrefecer completamente à temperatura ambiente e tapada com pano ou película.
* bater a mistura da água com a manteiga quando se coloca a farinha em círculos constantes e rápidos.
* juntar os ovos dois a dois e se necessário mais uma gema até obter uma pasta cremosa.
* deixar a massa descansar e levar ao frio antes de ir ao forno.
* se quiser uma massa para salgados inverto a dose de açúcar e sal.

... é por aprender e saber fazer muitas e muitas vezes a mesma coisa fazendo com que o resultado seja sempre similar que podemos tomar a liberdade de tentar melhorar algo que sabemos já, em parte, dominar. é assim a natureza das coisas. e o absurdo das ideias certas...


... lógica na cozinha ...


«...é possível que a essência do futuro esteja na margem, na pequena ponta que sobeja e que ficou por lavrar, por ordenar. é possível que naquele bosque fechado, naquele campo abandonado, baixo e húmido, onde às vezes atolamos os passos, se encontre o até então indefinido, o tesouro escondido mas, de qualquer modo, o espaço livre que permite o desenho e a iluminação dos homens livres...»
antónio alçada baptista

... é preciso sentido. lógica. na cozinha. ao cozinhar. e saber. e memória. faz-me uma imensa confusão cozinhar em isso presente. pode até ser uma lógica não funcional. pode até ser algo absurda, mas há que criar essa linha, essa ordem, essa corrente de organização que permita uma leitura de tudo e e de todos em função do que se quer cozinhar e o que se quer servir. mandar não é dar lógica. é dar comando. criar um prato por criar, numa série de muitos, pode até ser dar essa razão a um prato mas que se integra num todo. numa fase em que a aprendizagem passa pela experimentação sei, mais do que nunca, que a cozinha precisa respeitar as suas mais sagradas certezas. cozinhar uma sopa de castanha não é o mesmo do que um creme de legumes ou qualquer outra sopa. preparar uma entrada fria com ameijoa e sapateira não é o mesmo do que fazer uma salada. as mesmas regras não se aplicam a produtos diferentes mesmo sendo a finalidade a mesma. é preciso "ouvir" cada produto. saber o que se está a trabalhar. pode parecer estranho este lado intuitivo que cada vez mais descubro mas é fundamental ver que sem saber com o que vamos cozinhar, no momento, é quase impossível perceber o fim de tudo. é por isso que é tão importante conhecer o mais possível os diferentes métodos de confecção. a história e a técnica. a razão e a utilidade. isto salva o produto. mais, salva o sabor. cozinhar é um processo que nasce dessa intuição e termina na lógica. numa lógica necessária. numa lógica urgente. para se salvar o que se cozinha. ou então tudo não será mais do que um exercício imediato vazio de sentido e de sabor...



01/11/15

... na cozinha ninguém manda ...


«...tudo o que fazem os homens está cheio de loucura. são loucos tratando com loucos. por conseguinte, se houver uma única cabeça que pretenda opor obstáculo à torrente da multidão, só lhe posso dar um conselho: que, a exemplo de timão, se retire para um deserto, a fim de aí gozar à vontade dos frutos de sua sabedoria...»
erasmo, elogio da loucura

... retiro-me, agora. já o tinha feito, da vida, agora, da cozinha. na cozinha. nesta caminha aprendi duas coisas fundamentais: ouvir sempre, aprender sempre e que nada feito pelas minhas mãos possa ser provado sem eu achar que está bom. estabelecer estas duas regras que são padrões de um modo de estar na cozinha fazem do caminho que faço uma travessia imensa. porque exige muito mais do que só cumprir estes mandamentos. ouvir exige, em primeiro lugar, colocar de lado as minhas (poucas ou nenhumas) certezas. e aprender pode ser ver comprovado aquilo que pensava errado ou certo no caminho oposto. e depois a regra que tenho que não gosto que nada do que posso fazer não cumpra essa ideias simples e muito exigente de ser, para mim antes do que para quem vai comer, algo que está verdadeiramente bom. não é bem feito nem tecnicamente bem executado, nem bonito. é bom. e bom é o somatório de tudo isso. é por isso que, para sobreviver neste tempo das coisas feitas de todas as formas e de todos os modos, me tenho que retirar. me colocar fora da corrida. este nunca foi o meu tempo. nem o meu mundo. nem nada disso. sou só uma pessoa mais do que imperfeita a tentar aprender a cozinhar. isso pode não ser nada. neste tempo, não é. é até o pior lugar para estar. por isso, tudo custa muito mais. cada dia, cada coisa que não aprendo, cada palavra dita sem razão, cada falha que tenho. cozinhar e aprender a cozinhar é agora, para mim, um lugar de retiro. para encontrar o que falta. ou sobreviver. tão somente...

... tarte de dia de chuva ...

... às vezes, quando a vida é mais dura, precisamos de um momento simples em que algo nos diga que tudo vai passar. os dias de chuva são demasiados, às vezes. por isso, regressar ao simples e à certeza de um sabor reconfortante é algo precioso. muito mais quando sabe, verdadeiramente, bem...

«...uma pessoa não está... nítida e imóvel diante dos nossos olhos, com as suas qualidades, os seus defeitos, os seus projectos, as suas intenções para connosco (como um jardim que contemplamos, com todos os seus canteiros, através de um gradil), mas é uma sombra em que não podemos jamais penetrar, para a qual não existe conhecimento directo, a cujo respeito formamos inúmeras crenças, com auxílio de palavras e até de actos, palavras e actos que só nos fornecem informações insuficientes e aliás contraditórias, uma sombra onde podemos alternadamente imaginar, com a mesma verosimilhança, que brilham o ódio e o amor...
marcel proust




tarte de dia de chuva
tempo: 1.30h
ingredientes
para a massa
200gr de farinha
10 gramas de açúcar amarelo
50 gr de manteiga
1 gema
4cl de água morna

para o recheio
4 gemas
150 gr de açúcar amarelo
20gr de farinha
raspa de 1 limão
meio litro de leite
6 maçãs
canela
mel

receita: faça a massa juntando todos os elementos numa taça e amassando até ficar com uma massa lisa e homogénea. deixe repousar por trinta minutos.
prepare o recheio colocando o leite a ferver com dois paus de canela. numa taça, em separado, bata quatro gemas com o açúcar e a farinha até ficar esbranquiçado. junte a raspa de um limão. verta o leite, depois de ferver, aos poucos e mexendo sempre, aos preparado. depois de ligado, leve ao lume até engrossar e reserve.
estique a massa e forre uma forma de tarte previamente untada com manteiga (abundante). pique o fundo. polvilhe o fundo depois de forrado com açúcar amarelo e canela. corte as maçãs às rodelas de tamanho fino a médio e disponha em círculo até forrar o fundo. verta, depois, o recheio que deve estar ainda morno. espalhe. polvilhe novamente com canela (e pode juntar umas gotas de vinho do porto se gostar). volte a fazer uma nova camada de maçãs às rodelas em círculo. forre com tiras da massa ou deixe sem nada. volte a polvilhar com açúcar amarelo e/ou mel.
nota: sirva morno acompanhado com um gelado de nata ou natas batidas com raspa de laranja e hortelã.

... salvamos os dias por instantes. por breves segundos. guardando um sabor por mais uns momentos. sabemos que poucas coisas são tão certas assim. salvamos a vida, por isso, nem que seja só por um instante...