28/11/15

... competir é perder na cozinha ...


«... há em todas as coisas um halo melancólico, o que tem a ver com mundos que desapareceram, vidas que não sei até que ponto terão chegado a realizar, pessoas que esperam, ainda, que alguém se interrogue sobre o mistério da sua existência...»
nuno júdice

... aprendi uma coisa muito importante. quem cozinha tem que cozinhar tudo. o que gosta e o que não gosta. e tem que saber e ter feito tudo. da mais aparente insignificante encomenda ao mais rudimentar acto de, por exemplo, ao fim do dia levar o lixo ao seu devido lugar. cozinhar é das coisas mais exigentes que conheço no que toca à necessidade de aprender e fazer tudo de novo constantemente. as estrelas, hoje, da cozinha, tendem a mascarar tudo isto. há um glamour onde não existe. pior, isso transparece para quem está a aprender a dar os primeiros passos ainda. a ideia de competição é um absurdo neste contexto. em cozinha é estúpido falar em competição. em qualquer modo ou forma. e isso é assim pela mais simples das razões. porque a única competição que um cozinheiro deve ter é para consigo mesmo e para com os alimentos. se a primeira é de observação das suas limitações e conquistas a segunda é ainda mais poderosa. é um combate entre a humanidade e a natureza. esse sim, deveras interessante. e mais nenhum outro tem lugar numa cozinha. se se ensina isso ensina-se mal. se se pensa nisso deve repensar-se tudo porque tudo o resto que não seja isto, estas duas coisas centrais que qualquer cozinheiro sabe que assim é, transforma a cozinha em tudo aquilo que não deve ser e, acima de tudo, faz perder aquilo que se quer e que define a cozinha em si mesma. esse espaço de tempo de dávida constante para os outros. é sempre para os outros. isso não se pode esquecer. nunca. ou então estaremos a fazer tudo menos cozinhar. com estrelas mas sem brilho...

... empadas à antiga ...

... é um gosto pessoal. a massa folhada nas empadas não me diz muito. talvez por isso me faça sentido outra coisa. procurar é sempre o caminho de descoberta para quem cozinha. as empadas são alguns dos últimos redutos de conforto da cozinha para se comer à mão. podem ser prato principal. podem ser petisco. é como petisco que sempre admirei uma coisa que acho fabulosa. o recheio cremoso, preso, suspenso, no seu interior. é daquela memórias únicas. daqueles sabores únicos. fazer tudo isso com receitas antigas é ainda mais curioso. é um regresso a um lugar comum. de memória colectiva. nem que seja por isso, sabe bem...

«...ter a coragem. ir buscar forças onde não as tenho. impedir que o terror das horas futuras me paralise. adivinhar sentido onde menos se encontra. substituir o medo pelo que se quer que seja. ou menos que isso: o simples exercício na ocupação do tempo, a indispensável disciplina...»
pedro paixão


empadas de galinha à antiga
ingredientes

para a massa
(6 empadas)
200gr de farinha peneirada
40 gr de banha de porco
1 ovo
qb caldo do estufado
1 gr de sal

para o recheio
250 gr de frango/galinha do campo
meio pimento encarnado
2 tomates maduros
meio chouriço de carne
1 cebola
2 dentes de alho
 40 gr de manteiga
25 gr de maizena
vinho branco
azeite
salsa

receita para o recheio: num tacho coloque um fio de azeite, a cebola picada, o alho picado, o pimento picado, o tomate sem pele e aos cubos (com as sementes), o chouriço cortado aos cubos pequenos e deixe refogar. refresque com vinho branco e junte um copo de água ou até conseguir cobrir todos os elementos. deixe ferver. junte sal e pimenta. reduza o lume e deixe cozinhar até a cebola se desfazer e o frango estar tenro. retire, nesta altura, uma chávena do caldo para a massa. junte a manteiga e a farinha e deixe engrossar. rectifique os temperos e junte a salsa picada. reserve.

receita para a massa: num recipiente coloque a farinha e o sal e abra um buraco ao meio. junte a banha e o açúcar. vá misturando tudo com as mãos até obter um esfarelado com a farinha e a banha. junte o ovo e o caldo que deve estar morno. trabalhe a massa até ficar homogénea. deixe repousar 15 minutos.

receita para as empadas: unte as formas com os dedos envoltos em banha ou manteiga, mas de forma muito ligeira. faça uma pequena bola que caiba no centro da mão e vá dando forma ao fundo da empada na forma que vai ao forno. encha com o recheio (não totalmente pois tende a sair) e tape com a restante massa. pincele com ovo. leve ao forno a 160º durante 35 minutos.

ç


27/11/15

... cozinhar é só isto ...


“i do not approve of anything that tampers with natural ignorance. ignorance is like a delicate exotic fruit; touch it and the bloom is gone. the whole theory of modern education is radically unsound...»
oscar wilde

... gosto das horas em que se cozinha. aquelas em que verdadeiramente se cozinha. em que um grupo de pessoas, onde cada qual tem a sua forma de olhar para o nobre acto de cozinhar, as suas tendências e as suas formas de fazer as coisas e simplesmente cozinha. sem mais nada. colocando apenas em tudo o que faz o melhor que sabe. não importa o produto, o que não há e podia haver, o que falta. tudo o que está é o necessário e com isso faz-se o que se consegue. sempre procurando fazer bem. porque importa. importa conseguir. cumprir o desafio constante de entregar algo bom a outros que estão de passagem. não importa nada mais do que só saber que ficou bom. e a magia única de ver nascer de coisas desligadas entre si um prato, um petisco, algo que sabe bem. e sabe bem porque é bom. porque foi bem cozinhado. ser cozinheiro é um pouco isto. ter esse imenso privilégio. esse poder só dado aos homens que roubam o fogo aos deuses para iluminar um pouco mais os dias. no caso de quem cozinha, de roubar um sorriso ou dar um pouco de conforto. se a comida não der conforto é tudo menos boa. reconfortar. renovar as forças, roubar o tempo nem que seja para parar os dias cheios de nada. ou esconder as horas que passam sem as podermos parar. nisto está a alma do cozinheiro. o seu imenso poder. mesmo que ninguém, nem ele mesmo, saiba que o tem. porque não é um poder. é só um gesto, um tempo, uma forma de se dedicar aos outros. e isso, num tempo em que tal é tão raro, é o que faz a diferença. individualmente ou em grupo. a dedicação quando se cozinha. essas são as horas boas. essa é a cozinha boa....

26/11/15

... construtores na cozinha ...


«...um dos preceitos mais enraizados e mais geralmente admitidos é o de acreditar que os homens possuem em si qualidades imutáveis: há homens bons ou maus, inteligentes ou estúpidos, enérgicos ou apáticos, e por aí adiante. ora, os homens não são assim. podemos, apenas dizer que um homem é mais vezes bom que mau, mais vezes inteligente que estúpido, mais vezes enérgico que apático, ou o contrário; mas classificar um homem, como sempre fazemos, de bom ou inteligente e um outro de mau ou estúpido é um erro. também os rios, todos de água, são umas vezes mais estreitos, outros rápidos, outros largos ou calmos, transparentes ou frios, caudalosos ou tépidos. ora, os homens são como os rios. cada um traz consigo a semente de todas as qualidades humanas, de que revela, em certos passos, umas características, noutros, outras, chegando mesmo, em certas ocasiões, a mostrar-se sob uma forma completamente oposta à sua natureza íntima, que, não obstante, mantém...»
leon tolstoi

... habito o silêncio. queria ser capaz de o fazer ainda mais. serei capaz, certamente. e um tempo. que não é de agora. talvez por isso o meu fascínio pela pastelaria e doçaria aumenta a cada descoberta. aquele é o tempo dos construtores. é outro tempo. pensado. coerente, sabedor, edificado. a beleza da experimentação ocorre na imaginação e não na fantasia. parte do real e dele faz qualquer coisa nova. percebemos que uma dedicação assim não é para quem não sabe esperar. aprende-se a esperar por tudo na confecção de um doce. pelo repouso e pelo apuro. pelo frio e pelo quente. pelo despertar dos sentidos porque esta é, quase sempre, a última iguaria dos comensais. a que fica. a que pode salvar tudo o resto. a que se leva. a pela qual, tantas vezes, se regressa. tudo isto exige muito mais do que só misturar ingredientes. é preciso entender e como tal o seu espaço é atribuído a quem o faz. a quem perde esse imenso tempo para entender. a inteligência é isso. a destreza vem depois da prática de transformar as mãos em fazedoras disso. aprendo sempre que percebo que ali, naquele espaço de coisas doces, tudo tem o seu tempo. e ali, sem tempo, posso de facto cozinhar para além da imaginação. porque é preciso sentir e saber. é de uma exigência brutal. rouba tudo o que sabemos e até os nossos limites. mas oferece também a liberdade plena do pensamento. e isso, é de uma valor imenso para quem gosta, verdadeiramente, de cozinhar...

24/11/15

... imaginar sempre é cozinhar ...


«... o existencialismo é o faro de uma humanidade que pressente desgraça. é uma reacção instintiva e alógica, mas precavida contra a perspectiva do anonimato que a espera. não há salvação fora do homem diz satre. e o homem, que sente debaixo dos pés o abismo da sua destruição como individuo agarra-se à própria raiz...»
miguel torga

... às vezes perco-me no caminho. paro por momentos. olho para a terra e para as coisas naturais. penso: gostava muito de conseguir reconstruir isto num prato. nunca pensei assim. foi a viagem que me fez ter essa capacidade. olho agora para as técnicas que aprendi e continuo a aprender em cada erro que cometo, cada certeza que já tenho, cada ideia que sigo e penso: não, não é por aí. uso cada saber como meu. experimento. ter um caminho é isso. é já conseguir pensar um prato "meu" do princípio ao fim. usando um pouco de tudo. como se fosse uma construção nova. hoje foi com um pedaço de madeira que estava cercado de gelo. o reflexo da luz dava-lhe uma magia qualquer. aquela imagem ficou-me na memória porque ainda era mesmo muito cedo e o frio fez-me lembrar chocolate e sabores quentes. às vezes preciso perder-me assim com ar de louco pelos caminhos para encontrar estas ideias. pensar é preciso. é urgente. criar, uma necessidade. agora o local é sempre o mesmo: o prato. as ideias vão todas convergir até lá. nunca tive essa urgência. agora tenho. não é a minha cozinha, nem nunca será. é uma diversão da mente. um entretém para a alma. uma fuga. como se tal fosse possível. para correr para longe do existencialismo que me persegue. hoje sei que cozinho mais. não sei se melhor. sei que mais. muito mais. constantemente. e quando me lançam um desafio crio, em memória e imaginação o que quero fazer e como gostava que fosse. o trabalho e os desafios de cozinhar são assim estas brincadeiras da mente. é aqui que vale tudo o que foi vivido e experimentado. a diferença está ai. e na perda do medo de experimentar. o erro estará lá sempre. mas com a exigência nas mãos e o sonho na alma podemos cozinhar aquilo que serão memoráveis momentos para outros. penso nisto. muitas vezes. até quando me perco...


... modernidade vs tradição ...


 «I think that the important thing with any kind of food culture is that – food is, by definition, made to be consumed relatively quickly. Perhaps you have a cheese or a cured ham that can last for a couple years, but that’s about as long as any food can actually stay intact without disappearing. And this means that if you stop using techniques for food production traditions, if it’s not in practice anymore, it takes one generation for the primary knowledge to be gone. And two generations for the secondary knowledge, the memory, to be gone. And then in three generations, which is not that long, you only have written knowledge or otherwise recorded knowledge, which is not the same thing. And because of this, the food culture changes so quickly, so many of these dishes that we consider to be iconic dishes to our region, they aren’t that old.»
magnus nilsson

cozinhamos no momento em que vivemos. usamos conhecimento edificado ao longo de demasiado tempo em que uma diversidade imensa de mãos, rostos, gestos e desejos se encontraram para fazer de um prato algo de memorável. a nossa cozinha, seja ela fruto de que influências ou correntes sejam, é sempre contemporânea. nisto se misturam todas as coisas. a história e a ciência. a ciência é recente. temos, no máximo, cem anos de uma lógica verdadeiramente científica. esta mudança de paradigma chegaria, como chegou, inevitavelmente à cozinha. ao processo e aos métodos de cozinhar os alimentos. por duas razões fundamentais tal se verifica: a mudança do imediatismo da degustação e a alteração técnica no processo de per si. vamos por partes. hoje, numa sociedade de tempo urbano acelerado, local e vivência temporal que acolhe com maior facilidade o tipo de cozinha dita molecular ou experimental, a mesa representa um local de status assim como de representação. se a ideia de representação social da mesa e do momento de alimentação sempre se reflectiram na história como uma verdade incontornável de encenação da vida, o mesmo não se passa com a forma como tal ocorre.o  tempo dedicado ao acto de comer alterou-se na forma e no modo. a cozinha e o processo de confecção acompanharam este movimento e com isso tiveram uma necessidade imensa de se adaptar. geralmente associada a menus de degustação, esta cozinha experimental quer surpreender mais do que confortar. quer dar-se a falar mais do que deixar os comensais falarem de outras coisas. quer ser o centro da mesa em detrimento de quem lá está e quer tudo isso num tempo médio curto onde, o imediatismo é determinante e cada instante é em si mesmo a tal experiência que se reclama em cada prato. a cozinha típica portuguesa é diferente na razão e na essência disto mas também reclama essa centralidade, embora, na sua razão completamente diferente desta. esta é a maior incompatibilidade entre as duas formas de cozinhar. enquanto escrevia estas linhas recordei uma reclamação de memória que josé avillez referiu recentemente relativamente a um jantar de degustação sobre memórias de infância em que foi convidado a participar. cito: “transportar as pessoas para a minha infância, que provavelmente é também a de muitas delas, em apenas duas colheradas.”. falava de um cozido à portuguesa criado com apenas um elemento de carne e onde todo o sabor estava no caldo. é deste senso e gosto que falo quando refiro a questão do imediatismo e dessa ideia de referência que é antagonizada pelo processo de que falarei a seguir. se a memória é algo de imensamente importante na criação do prato, como podemos assegurar essa referência seja colectiva. é o imediatismo que trata disso. tal como a variedade, necessária para acertar numa referência e tornar a experiência de comer algo conhecido como útil e elemento de puro prazer para que come. é aqui que a cozinha dita molecular ou experimental se separa definitivamente da cozinha típica. é onde, muitas e muitas vezes falha para alcançar o desejado local de referência. esta centralidade da memória que se representa no prato é distinta em cada caso. na cozinha típica portuguesa o que importa é a reunião. na cozinha contemporânea que usa essa referência como elemento de ligação à memória colectiva ou individual, a centralidade é o prato em si mesmo e a “experiência”. mas falemos do elemento seguinte. a alteração substancial no processo. hoje as cozinhas profissionais são dotadas de equipamentos e de recursos (elementos químicos, substâncias reguladoras, etc...) que permitem (ou tentam) em pouco tempo conseguir o que na cozinha típica portuguesa era (e é ainda em muitos casos) feito pelo tempo e por processos ancestrais. se é verdade que muitos procedimentos caíram em desuso e se adaptaram à modernização que a sociedade portuguesa vivemos nos últimos quarenta anos de liberdade e inclusão europeia, também é verdade que há procedimentos que se vão mantendo. por exemplo, desaparecendo quase integralmente a salga dos alimentos de base (carne e peixe) sendo substituídos pela refrigeração, tal ainda se tenta conservar no processo de marinar cada elemento ou deixar a salgar de um dia para o outro, por exemplo para a confecção do cozido já aqui referido. os elementos ancestrais de segurança confundem-se aqui com os elementos de tempero, mas acima de tudo, de saber e sabor de manutenção dos processos de confecção. a cozinha dita molecular ou experimental quer acompanhar este movimento. hoje há um movimento vivido por muitos chefes para reabilitar estes procedimentos onde o expoente máximo é a “maturação” da carne que parece ser moda em construção. mas a isto juntam-se os tais elementos ditos moleculares. porque o tal imediatismo e a alteração do processo e tempo, assim como a alteração sofrida na tecnologia disponível na cozinha actualmente assim o obriga. partem-se processos que não devem sem quebrados e juntam-se intensificadores de sabor, emulsionantes e coisas que tais para conseguir algo que o tempo e o modo da cozinha dita típica ou tradicional consegue fazer em conjunto. fuma-se a carne ou peixe depois de o assar, frita-se ou liga-se tudo em jeito de finalização sem reparar na importância que tem a confecção como um conjunto em si mesmo. é aqui que se separam as águas no que diz respeito a quem confecciona usando elementos da cozinha dita molecular ou experimental e quem percebe a necessidade de a integrar sem alterar essências. faz a diferença essa relação directa e transformadora. faz principalmente diferença no sabor sentido. e na tal referência de memória que tudo liga.
cozinhamos no tempo em que vivemos. as experiências que hoje fazemos serão integradas no futuro. as receitas que julgamos antigas são tão recentes como a distância de duas geração e pouco mais. tenho a plena noção disso. como tenho também a noção que cada prato da cozinha típica portuguesa representa uma evolução de séculos. de transformação. muitas vezes até radical. mas a conjugação entre a cozinha de hoje e a típica ou tradicional não só é necessária como imensamente útil. não viveremos nos tempos passados. viveremos e deixaremos aos que no futuro vão cozinhar novas formas de ver cada sabor, cada processo, cada experiência. o que não podemos alterar, ou devemos alterar, é a centralidade de tudo isto na mesa. este e esse movimento é que está por fazer. retirar a fama e a conversa centrada no prato e no espectáculo que surpreende para o recentrar na memória e na referência e no encontro. a mesa como local de encontro está a perder-se. fruto do movimento imediato e líquidos dos tempos que vivemos. talvez esse seja o maior trabalho que quem cozinha tem que fazer.

“se os senhores se referem à cozinha molecular, tenho o maior prazer em dizer que não a praticamos. lamento também informá-los que ninguém come em museus nem vem aos meus restaurantes para comer as cortinas, só existe uma culinária: a boa”.
paul boucuse

23/11/15

... intemporal ...

 

«... onde me escondia num cantinho de um muro a confundir-me com as pedras como os sapos e os lagartos faziam, isto é quase ajoelhada na terra a respirar-lhe o cheiro misturado no meu cheiro de forma que eu terra também, não tronco e braços e pernas, casulos, plantas, insectos e qualquer coisa que não sabia o que era...»
antónio lobo antunes

... sou um homem da cidade. do campo conheço apenas o que a viagem da vida me deu a mostrar. não conheço todas as plantas, nem o sabor do suor do trabalho de revirar a terra. para cozinhar preciso disso. quando posso passo esse tempo a perceber tudo isso. cozinhar é um acto de conhecimento profundo da natureza das coisas. preciso ser terra para saber os sabores que dela podem sair. cozinhar a sério é isso, para mim. esse mergulho, essa viagem nestas coisas. do mundo retiro as ideias. o pensamento não cessa. gira, regressa, volta em forma de cheiros e sabores. os aromas não são sabores. são aromas. as ervas servem esse propósito. não todas, algumas. as aromáticas. os sabores surgem de outros lugares. da alma dos alimentos. estão lá cativas. é preciso meter as mãos na terra para perceber isso. cozinhar é uma viagem. essa viagem. levada a sério. exigente. que pede de nós toda a vida. toda a percepção das essências. não é para levar em jeito de trabalho. é um caminho. o caminhante sabe que tem que atravessar planícies e montanhas. ter frio e calor. saber esperar. saber perguntar. saber ver e olhar com atenção. escutar. nada vem "embalado". não se mistura tudo para ver o que dá. cada coisa tem o seu lugar. é só atravessar um campo neste tempo de fim de outono e perceber isso. depois, no momento de ter espaço para cozinhar, saber de onde cada elemento surge. ter tudo uma lógica. uma vida. a que se deu para descobrir. descobrir é um trabalho imenso para quem cozinha. tudo sem, quem degusta, saber que foi feito mas que fica lá, no prato, quando alguém prova e sente essa viagem feita de vida dada em função do sonho. vai-se dando imenso da nossa vida à cozinha. chamam-lhe alma. eu chamo-lhe vontade...

... almôndegas à anos oitenta ...

... começamos a gostar de cozinhar quando não nos conseguimos desligar dos sabores de outros tempos. do tempo da televisão a preto e branco ou depois dos telediscos. do brincar na rua e dos sabores sem aditivos. no tempo em que o ketchup era um luxo e os ovos kinder vinham uma vez por ano da alemanha (do lado bom). eram outros tempos. e outros sabores...

«... tenho diante de mim esta força cega, este absurdo a escorrer ternura e lepra, como a primavera escorre morte, a irromper contra tudo e apesar de tudo, de uma profundidade cada vez mais sôfrega e cada vez maior. não quero ver e hei-de por força ver!...»
raul brandão


almôndegas à anos oitenta
ingredientes
para as almôndegas
300 gr de carne picada de porco
1 linguiça pequena
salsa
1 ovo

para o molho
5 tomates maduros
1 cebola 
3 dentes de alho
polpa de tomate
manjerição fresco (ou orégão)

receita para as almôndegas: pique a linguiça na picadora por três vezes. junte à carne picada. pique a salsa rudemente, e junte. junte um ovo e amasse até ter uma consistência homogénea temperando com sal e pimenta. forme pequenas bolas do tamanho do centro da mão sem prensar. passe por farinha e reserve.

receita para o molho: corte a cebola aos pedaços rudemente. pique o alho.  tire a pele aos tomates. num tacho largo junte um pouco de azeite e coloque a cebola, o alho e o tomate e deixe refogar com a tampa durante alguns minutos. tempere com sal e pimenta e depois de surgir alguma "água" no fundo tacho junte a polpa de tomate e meio copo de água. deixe ferver e deixe cozinhar até ao tomate se desfazer por completo. vá rectificando com água e verificando os temperos. no final junte o manjerição picado. 

finalização: quando o molho estiver feito coloque em círculo, de fora para o centro do tacho as almôndegas e deixe cozinhar em lume brando por 30 a 40 minutos.

dica: sirva quente acompanhado de arroz branco ou esparguete salteado com alho.

... a experiência de vida faz olhar para coisas perdidas como memórias. como algo bom. são sabores quase esquecidos porque se banalizaram. simplesmente fazem parte de quem somos, de como cozinhamos. deixar cair cada uma destas memórias por achar que é uma cozinha que hoje parece absurda é um erro. os tempos são redondos. um dia, certamente, saberemos o quão surpreendentes são estes saberes que agora se julgam ultrapassados...








22/11/15

... é básico ...


«...tudo isto tem a ver com o conhecimento
de um pequeno jardim no meio da cidade
quando o sono e o silêncio despovoam a terra
e o último vagabundo entra a porta sem número e vai desaparecer
correndo pelo telhado...»
cesariny

... estar numa cozinha a nível profissional é levar cada tarefa a sério. aprender e desafiar o que se sabe e o que ainda não se sabe, ainda mais. não consigo encarar o acto de aprender a cozinhar de outra forma. há tempos e modos para tudo. menos naquele momento em que se está a preparar tudo para outros degustarem. é por isso que vejo sempre como desafio ter elementos muito simples para trabalhar. básicos, para mim, de basilar. de estrutura. de ter que saber fazer com pouco algo de imensamente saboroso e belo. hoje a beleza é um lugar presente na cozinha para além do sabor. cada vez mais penso que esta autoridade do sabor tem que ser muito bem pensada. mesmo muito. quando cozinho parto sempre da premissa: sabor? mas que sabor? não estamos habituados a todo o tipo de aromas e sensações no paladar. estamos diferentes em função das expectativas. temos que ajustar o sabor à expectativa e isso faz de nós cozinheiros a pensar no futuro mas com as mãos no presente. agora, difícil é mesmo esse exercício constante de cozinhar com algo muito simples. às vezes, água, pão, alho, coentros e pouco mais. ou tomate, somente. ou cavala. ou arroz. quem cozinha tem que saber fazer muito com muito pouco. é-lhe exigido isso. nem que seja com a tal expectativa que cerca o sabor. mas cada vez menos se prepara para isso. ensinam-se as técnicas mais elaboradas, exige-se uma modernidade aparente e deixa-se cair a basilar noção de trabalhar em qualidade o que é preciso dar como alimento. isso cai no esquecimento, passado algum tempo. e ninguém saberá fazer mais aquilo que nos define como cozinheiros. ouvi: são gerações diferentes. o que me custa é que houve um tempo em que uns ensinavam tudo aos outros. agora já não é assim. infelizmente. quem perde é quem cozinha. quem um dia precisa de cozinhar algo verdadeiramente memorável e não é capaz de o fazer simplesmente porque não o sabe...

17/11/15

... ecos na cozinha ...


«... quem nos dirá a nós que lá no mar as ondas
não venham ainda a precisar de serem vistas
para continuar a nascer e rebentar...»
ruy belo

... estive a ler o pantagruel. não as receitas. o prefácio. fixo uma frase: «tem de se gostar antes de comer, para depois se saborear com deleite...». já ninguém escreve assim. são ecos de outros tempos. de outros modos. cozinhar é hoje um exercício de vã-glória/vã-cobiça. cada um com o seu caminho. a cozinha é um lugar de egos em vez de ecos. eu gosto muito de cozinhar. cada vez mais. mas não da cozinha que se faz por determinação de um tempo que se perde neste momento em que somos todos cumpridores de um desígnio de espectáculo. levei tempo a descobrir esta identidade para a forma como quero cozinhar. e ainda por cima descobri que estou em contracorrente. isso não importa nada. agora, descoberto o caminho, tenho mais dúvidas ainda. sei ainda menos o que fazer com tudo isto. cozinho hoje muito mais e muito melhor. penso de forma muito diferente o que vou cozinhar e como vou cozinhar quanto tal surge como desafio. aprendi isso com o tempo, com o estudo, com as perguntas e com as respostas. com o que vi, com o que me desafiei a quebrar enquanto limites de mim mesmo. perdi medos. ganhei muitos mais. não sinto que tenha um especial dote para a cozinha. o que sei e faço é por estudo, por racionalização das coisas que procuro conhecer. tenho um terrível hábito de não querer saber o novo nome das coisas antigas. ainda digo frigideira e fritar em vez de sauté e dourar. não sei a diferença entre um molho e qualquer outra coisa. não gosto de emulsionar. gosto de mistura e ligar. é um defeito que cultivo. com muito gosto. o que fazer quando o caminho está definido? sabendo que este, como os outros já tanto escolhidos ao longo da vida inteira estão fora da moda? da tendência, como modernamente se chamam a estas coisas dos rios que correm todos para o mesmo lado. por agora, só aspirar a conseguir ter um ar estúpido. ignorante e inútil. esperar pela onda, a outra, a quem vem sempre depois das primeiras e que é maior. talvez essa seja a minha. talvez um dia chegue o meu tempo ou eu ao tempo certo das coisas da cozinha. não é este. saber o caminho que tenho nas mãos já é bom. esperar é, dizem, uma virtude. talvez de poucos. ou talvez a minha. um dia, quando tudo isto passar, talvez haja em qualquer lugar, um espaço para o que quero fazer com o caminho que descobri para este imenso gosto que tenho por cozinhar. talvez...